Memórias Artificiais: “Flor da pele em nervos de bicho”, uma coluna de Victor Grizzo
Bichos sempre voltam. Repetia. A cabeça roubada mais uma vez. Boca colada, dura. Não cuspia mais palavra. Língua feita de couro, grudada. Bichos sempre voltam. Lábios partidos, só ranhura. Pele grossa, cartografada, sem elasticidade. Cabelos espalhados no travesseiro. Bichos sempre voltam, dizia mais uma vez.
O quarto era grande demais para o corpo que restava. Pé-direito alto, exagerado, como se feito para outro. Tacos à moda dos cupins. O azul da parede sem cor, azul por insistência. No vidro quebrado das janelas — era possível ver um pedaço da cidade, não o centro todo, só o pedaço onde as coisas se partem. Luz amarela atravessava tudo, tingia o mofo, tocava sem aquecer.
Lá fora, ruídos bêbados. Vozes tropeçando na calçada, um riso curto, murcho, sem ninguém para responder. Passava das duas. São Paulo espalhada, fria, sem urgência. Ele, na cama, sem sono, nem pressa de acabar.
O rosto de um lado para outro, impaciente, apenas movia a cabeça no travesseiro gasto, tecido áspero que arranhava a pele. Coçou. Mais uma vez. Unha afundou. Rosto fino, frágil, abriu fácil. Um risco de sangue, quente, desceu pela lateral da mandíbula. O barulho vinha do banheiro, ali perto. Batidas leves, asas que batiam no azulejo. Aves. Sabia que eram aves. O bater era irregular, aflito. Asas no escuro. Recuou os ombros, puxou o lençol até o peito. Boca trincada, olhos presos na porta entreaberta.
Os bichos sempre voltam.
A tentativa de fuga aos olhos fechados. Trouxe o pai. Surgiu inteiro, como vinha nas noites antigas: camisa aberta, hálito forte, riso rouco. Tinha um gato na mão. Depois dois. Jogava em cima do menino, um de cada vez. Os corpos espremidos miavam alto, espalmavam as patas no ar, caíam em cima dele menino. As garras entravam fundo. Rosto, couro cabeludo, pescoço. Não chorava. Não havia quem escutasse. O pai ria. Ria de abrir a boca toda. Dava um passo para trás, pegava outro gato.
Impossível ficar deitado naquele estado. O corpo de pé antes da decisão. Foi até o canto, pegou a mochila. Os sprays dentro, pesados. Sentou-se. Acendeu um cigarro. A fumaça subiu sem pressa. Ficou um tempo com o cotovelo no joelho, olhando o chão. Depois se levantou de novo. Desceu os três lances de escada. Ia até o túnel.
Precisava riscar alguma coisa. Desde pequeno era assim. Quando o traço saía, o resto aquietava.
O spray chiava na palma. O jato abria a tinta no concreto úmido. Desenhava devagar, letra por letra, cada traço forçado contra a parede do túnel.
Enquanto riscava, o passado entrava. Primeiro, o mercado. Era garoto, ficava no fim do caixa. Empacotava apressado, suava. Um dia, tropeçou nas caixas. Os vinhos caíram. Garrafas por toda parte, um rio escuro no chão. Dispensado ali mesmo.
Mais uma curva, agora firme. A mão conhecia o movimento. A cor preenchia bem.
Depois, os jardins. Quintais grandes, silêncio. Chamavam de paisagista. Não era. Detestava mato, flor, terra.
Podava errado, arrancava o que devia ficar. As plantas morriam logo. Ficava no sol sem comer, farpas presas na mão.
Trocou de cor. A ponta do spray agora fazia um som mais seco. Riscava nomes inventados, palavras que não serviam para ninguém.
Veio o carro. Guardou dinheiro, comprou o usado. Rodava a cidade com os olhos pesados. Passageiros entravam, falavam demais ou não diziam nada. O banco afundava. O trânsito. Detestava.
Mais um risco. A tinta escorria e ele deixava. Pichava para conter. Sempre foi assim.
Punho firme. Letra suja. Cimento riscado, traço torto, pintura de costas para o mundo. Mão cheia de spray, um cheiro de tinta misturado com a respiração curta. Lembrou do passageiro. A voz era lenta, e o negócio, simples: levar, entregar, pegar o dinheiro. Sem perguntas. Sacos, caixas, garrafas PET. Bicho dentro, sem som. Boca colada com fita, olhos oblíquos, corpo tenso. Não importava. Morto ou vivo, tanto fazia. Vendeu um, dois, três.
Empilhados. Mortos, sufocados, mas valiam. Sempre valiam.
“Faz silêncio, faz o que é preciso,” mandava a si mesmo. Nenhum movimento, nenhum grito. O dinheiro vinha rápido, a mão gelada e os rostos ao redor se desvaneciam. Começou a rir. O silêncio valia mais que tudo. Menos barulho, mais lucro. Mudou de carro, mudou de casa. Na rua, os olhares não importavam. As mãos passaram pela parede, espalhando o que restava da tinta. Os bichos sempre voltam. Fixou o olhar no muro, mas já não via só a parede.
Decidiu retornar ao apartamento. Frio no ombro, mão parada no bolso. Subiu as escadas sem olhar para o alto. A chave entrou seca. Madeira inchada, abriu empurrando com o corpo.
Quando se mudou, a velha falou:
— Se for usar o gás, cuidado. Tem um casal de periquitos morando no duto. Se não quiser problema, compre um chuveiro elétrico.
Falava sem parar. Rosto murcho, olhar miúdo. Cheirava coentro. Forte. Ficava no corredor, nos interruptores, na maçaneta.
Entrou. Piso manchado, colchão encostado na parede, toalha dobrada sobre a cadeira.
Sentou-se sem pressa. Olhos no teto, grades do duto abertas, pó grudado no canto.
Os bichos sempre voltam. O barulho do voo continuava.
Porta do banheiro empurrada com o ombro. Mão suada, pele grudada no metal da maçaneta. Luz acesa piscava, não firmava. Dentro, cheiro morno. Gás vazando aos poucos. Não sabia quanto tempo vazava. Sabia só que havia ali dentro dois, três, talvez quatro. Penas espalhadas no chão, presas na grade. Gás entrava, aves batiam. Teto baixo, sem saída. Tentaram voar. Tentaram.
Abriu o armário debaixo da pia. Pegou o isqueiro. Sempre o mesmo. Tampa amassada, cheiro de querosene.
Colocou no bolso. Respirou fundo. Atrasou o passo. Pisou na poça de água que vazava do cano. Escorregou levemente, mas seguiu. Gás subia pelo nariz. Tontura. Vontade de rir. Sufocava, sem querer rir.
Despiu a camisa. Dobrou com calma. Jogou sobre o cesto. A água do chuveiro ainda pingava. Gotejo persistente. Um, dois, três. Pingos marcavam o tempo. Subiu na borda da banheira. Puxou a mangueira do gás. Passou devagar a mão sobre o tubo. Sentiu os movimentos. De dentro, algo se agitava. Um som baixo. Depois outro. Batidas rápidas. Garras curtas tentando sair.
Girou o botão. Fogo. Pequena chama azul. Quase nada. Abaixou o corpo. Aproximou o isqueiro. Toque.
Explosão muda. A primeira coisa que sumiu foi o som. Não houve estouro, apenas um silêncio de vidro se estilhaçando por dentro. Depois, luz. E então o ar, arrancado do lugar. Vidro, azulejo, carne, lataria. Fragmentos lançados como insulto.
No teto, um cinza encardido. Madeira carbonizada. Penas presas nas rachaduras.
No meio do quarto, metade da cama. Tecido chamuscado, espuma à mostra. No armário, roupas queimadas até o zíper.
Pelas frestas do corredor, fumaça descia. Gente começou a gritar. Tiros de portas batendo. Degraus corridos. Gritos de nome sem dono.
Na laje do prédio, um periquito só. Olho parado, pena eriçada. Não fugiu com a explosão. Ficou. Respirava ofegante. Não cantava. Só respirava.
E era como se aquilo que vibra por trás das superfícies — sem nome, sem dono — conhecesse de antemão os pontos onde tudo se gasta. Um jeito de corroer por dentro, mastigando lento as margens do que resiste. A crueldade vinha calada, mecânica, como o ranger dos trilhos sob um trem noturno que nunca para, nunca pergunta. Ninguém fazia por querer. Fazia porque sim, porque era o que havia, porque era o que sobrava. Talvez não houvesse diferença entre esmagar um pássaro e guardar um segredo até apodrecer. Tudo virava massa indistinta, carne esquecida em temperatura errada. E o mundo, ou o que restava dele, seguia em frente como um porco degolado que ainda tenta correr — sem cabeça, mas com as pernas teimosas.
No túnel, onde o concreto ainda guardava a tinta. Ninguém olhou o muro. Mas o periquito, do alto, viu.
Os bichos sempre voltam.
Victor Grizzo
Victor Grizzoé artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.